(FALSIFICAÇÕES BÍBLICAS)
A uma grande diferença entre conhecer algo e conhecer profundamente. Por exemplo, uma coisa é saber olhar as horas em um relógio e outra muito diferente seria conseguir desmontar o relógio peça por peça e conseguir montá-lo novamente, este sim poderia afirmar que conhece o relógio profundamente. Infelizmente, a grande maioria dos cristãos se enquadra na pessoa que apenas sabe olhar as horas no relógio, estando muito longe daquele que consegue desmontá-lo e montá-lo novamente. A maioria dos cristãos segue o que lhes é ensinado por seus líderes religiosos que não raro seguem a tradição de sua religião sem pesquisar com profundidade a história da religião e da bíblia.
Raríssimas pessoas conhecem, por exemplo, o histórico de falsificações dos escritos cristãos nos primórdios da história do cristianismo. Para a surpresa de muitos cristãos, os livros que hoje compõem a bíblia são apenas uma pequena amostra de todos os escritos que circulavam entre as comunidades cristãs nos primeiros quatrocentos anos do cristianismo. A grande maioria de tais livros levava nomes de pessoas que conviveram com o suposto Jesus e tiveram um papel de destaque na história do cristianismo como Pedro, Paulo, Tiago, Tomé, Felipe, Judas, Maria Madalena entre outros. Muitos evangelhos, epístolas, atos e apocalipses vinham assinados por grandes nomes da história cristã. Porém, a grande maioria de tais livros foram considerados fraudulentos, escritos por cristãos desconhecidos que por serem carentes de influência ou prestígio escreviam em nome de alguém que veio antes deles e era influente, assim poderiam defender práticas ou conceitos religiosos de seu interesse com maior aceitação dos leitores.
As técnicas de falsificação incluem imitar o vocabulário, estilo literário, tamanho da sentença, formas específicas de aplicação da gramática, utilização de fragmentos de sentenças, uso de particípios, entre outras particularidades da escrita do autor. Além disso, utilizam declarações, comentários ou observações muito usadas pelo autor fazendo o texto ficar muito similar a um escrito original dele. Todos têm um estilo de redação próprio e a princípio todo estilo pode ser imitado. Entretanto, não existe uma falsificação perfeita, mesmo os melhores falsificadores da atualidade cometem erros e deixam alguma pista, sempre a algum detalhe que passa despercebido.
Quando tratamos dos escritos cristãos a tarefa de detectar fraudes fica mais fácil porque os primeiros cristãos não dominavam plenamente todas as técnicas de falsificação usadas nos dias de hoje. Diversos estudiosos tem através dos tempos demonstrado as evidências de logro na autoria de vários livros da bíblia. Na história da erudição moderna o primeiro grande trabalho contestando a autoria de um livro bíblico foi feito pelo estudioso alemão Friedrich Schleiermacher em 1807. Ele foi um dos mais importantes teólogos cristão do século XIX, influenciou diversos teólogos do século XX e até hoje há acadêmicos especializados em estudar suas obras e os seus ensinamentos.
Numa carta enviada a um pastor em 1807, Friedrich demonstrou que (1ª Timóteo) não fora escrita por Paulo como diz a tradição cristã. Outros estudiosos posteriores a Friedrich apresentaram argumentos de que outras cartas paulinas também eram fraudulentas como (2ª Timóteo e Tito). Hoje, mais de duzentos anos depois da primeira obra de Friedrich há um amplo consenso acadêmico de que das treze cartas cuja autoria e atribuída a Paulo apenas sete sejam realmente de autoria dele (Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filêmon) devido à coerência de estilo e teologia, tendo todas as características de ser escrito pela mesma pessoa. As demais seis cartas (1 e 2 Timóteo, Tito, 2 Tessalonicenses, Efésios e Colossenses) contêm incoerências e características muito diferentes apesar de um visível esforço de tentar parecer com os escritos de Paulo, como já disse antes, sempre a algum detalhe que passa despercebido.
Os pastores (1 e 2 Timóteo e Tito não estão incluídos na mais antiga coleção de cartas de Paulo, o chamado papiro de (Chester Beatty), que data do século III EC.
Portanto, Das 14 cartas atribuídas ao "Apóstolo" Paulo, somente 7 são consideradas autênticas, Escritas pelo cunho de Paulo: (Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, Primeiro Tessalonicenses e Filêmon).
Ás demais: (Segundo Tessalonicenses, Efésios, Colossenses 1 e 2 Timóteo, Tito e Atos dos apóstolos são pseudepígrafos).
Vamos analisar todas as seis cartas consideradas pelos estudiosos como fraudulentas e observarmos as evidências apontadas pelos acadêmicos.
Uma carta que parece improvável ter sido escrita por Paulo é (2ª Tessalonicenses). A primeira carta de Paulo aos Tessalonicenses é a que mais destaca o ponto de vista de que o fim era iminente e chegaria enquanto muitos daquela geração estariam vivos. O objetivo da carta era justamente reforçar tal crença porque alguns cristãos em Tessalônica haviam ficado perturbados com a morte de colegas crentes. Paulo lhes ensinou que o fim dos tempos era iminente e que logo eles entrariam no Reino dos Céus quando Jesus retornasse, entretanto, membros da igreja morreram antes que isso acontecesse.
Tal situação estava causando incerteza e dúvida entre os Tessalonicenses, será que seus irmãos falecidos teriam perdido sua recompensa celestial? Na sua carta Paulo lhes assegura que os mortos também seriam levados ao Reino. Ele explica que os que morreram fieis em Cristo ressuscitariam primeiro, depois os que ainda estavam na terra seriam arrebatados juntamente com eles (1ª Tessalonicenses 4:14-17). Inclusive Paulo esperava ser um daqueles que ainda estariam vivos quando isso acontecesse. Ele destaca que tal acontecimento seria súbito e inesperado como "um ladrão a noite" e quando as pessoas pensassem que estava tudo bem dizendo "paz e segurança" então lhes sobreviria "instantaneamente a repentina destruição". Os Tessalonicenses deveriam estar alertas e preparados, pois assim como as dores de parto de uma mulher grávida indicam que está próximo o nascimento do bebê mas não mostra o momento exato, assim seria o fim dos tempos, estava muito próximo mas ninguém saberia o exato momento (1ª Tessalonicenses 5:2-3).
A segunda carta aos Tessalonicenses diz justamente o contrário, o autor de segunda Tessalonicenses, alegando ser Paulo diz que o fim na verdade não se dará imediatamente, certas coisas precisam acontecer primeiro. Segundo o escritor, primeiro haverá a apostasia e haverá algum tipo de levante e rebelião política ou religiosa onde surgirá uma espécie de anticristo (o homem que é contra a lei) que tomará seu assento no Templo de Deus e se declarará Deus. Só então, depois de tudo isso, o Senhor virá e destruirá a todos (2ª Tessalonicenses 2:3-8).
Portanto, os tessalonicenses poderiam ficar tranquilos de que ainda não estavam no período final dos últimos dias quando Jesus reapareceria, eles entenderiam pelos sinais descritos na carta a proximidade da chegada de Jesus. Compare o momento do surgimento de Jesus em (2ª Tessalonicenses) onde ainda demorará um pouco sendo precedido por acontecimentos impressionantes e claramente identificáveis com o totalmente diferente relato de (1ª Tessalonicenses) onde o fim chegará como um ladrão noturno que aparece quando as pessoas menos esperam e como as dores de parto que instantânea e repentinamente tomam conta da mulher grávida indicando que o nascimento do bebê é iminente.
Há uma disparidade fundamental entre os ensinamentos de (1ª e 2ª Tessalonicenses), são duas visões totalmente diferentes e antagônicas, mesmo assim, o autor de (2ª Tessalonicenses) indica que já ensinou "essas coisas" (que tinha de haver uma sequência de acontecimentos antes do fim) a seus convertidos quando esteve com eles: "Não vos lembrais de que, enquanto eu estava ainda convosco, costumava dizer-vos estas coisas?" (2ª Tessalonicenses 2:5). Mas, em (1ª Tessalonicenses) Paulo ensina algo totalmente diferente, dizendo que o fim chegaria a qualquer momento, instantaneamente, muito diferente de (2ª Tessalonicenses), onde o suposto Paulo dá a entender que nunca ensinou tal coisa, dizendo que tem de haver uma sequência de acontecimentos impressionantes e claramente identificáveis (como a apostasia e uma rebelião onde surgiria o homem que é contra a lei) antes do fim (Edgar Krenz, "Thessalonians, First and Second Epistles to the", Anchor Bible Dictionary – Nova York: Doubleday, 1992 – 6:515-523).
No final de (2ª Tessalonicenses), o autor insiste que é Paulo e oferece uma espécie de prova: "[Aqui está] o meu cumprimento, o de Paulo, pela minha própria mão, que é sinal em cada carta; é assim que eu escrevo" (2ª Tessalonicenses 3:17). O autor quer dar a entender que um secretário redigiu a carta e que ele escreveu este trecho com sua própria mão, o leitor da carta poderia ver a mudança de caligrafia e reconhecer a de Paulo, prática que ele afirma ser constante em suas cartas, autenticando como sendo dele esta carta em oposição a uma suposta carta falsificada mencionada em (2ª Tessalonicenses 2:2): "que não sejais depressa demovidos de vossa razão, nem fiqueis provocados, quer por uma expressão inspirada, quer por intermédio duma mensagem verbal, quer por uma carta, como se fosse da nossa parte, no sentido de que o dia de Jeová está aqui".
A Urgência apocalíptica de Paulo, tão dominante nas letras anteriores está quase ausente nestes escritos posteriores. Entre o nível Deutero-Paulino, (2 Tessalonicenses) foi especialmente escrito para acalmar aqueles que alegavam que o dia do julgamento era iminente - o mesmo Paulo clamou constantemente em (2 Tessalonicenses 2:1-3).
Nota-se uma possível tentativa do falsificador de convencer seus leitores de que realmente era Paulo. Entretanto, fica clara a intenção do autor de enganar os leitores, pois, esta prática não era costume de Paulo como afirma o autor, nenhuma das cartas de Paulo termina assim. Talvez o falsificador esteja se referindo a (1ª Tessalonicenses) quando orienta seus leitores a não serem desviados por uma "carta falsa" ("quer por uma carta, como se fosse de nossa parte") que sustenta, em nome de Paulo, que o fim está logo ali ("no sentido de que o dia de Jeová está aqui"). Ou seja, alguém vivendo depois da época de Paulo queria eliminar dos leitores a mensagem que o próprio Paulo transmitira em (1ª Tessalonicenses) sobre o fim iminente visto que o fim não aconteceu e todos os demais daquela geração já haviam morrido. Assim, alguém depois da época de Paulo decidiu que tinha de interferir em uma situação em que as pessoas esperavam ansiosamente um fim iminente com tanta expectativa que estavam negligenciando as obrigações do cotidiano (2ª Tessalonicenses 3:6-12).
Vamos analisar agora a carta aos Efésios. Embora superficialmente tal carta pareça soar como um escrito de Paulo, se cavarmos um pouco mais fundo surgirão grandes incoerências. Efésios é uma carta escrita aos gentios (Efésios 3:2) para lembrá-los de que embora um dia tivessem sido alienados de "Deus" e de seu povo escolhido (no caso os judeus), eles foram reconciliados tornando-se justos perante "Deus", pois a barreira que separava judeus e gentios (a lei judaica) tinha sido derrubada pela morte de "Jesus Cristo" dando a eles a possibilidade de viver em harmonia entre si debaixo da graça de "Deus".
A partir do capítulo 4 o autor se volta para questões éticas e comportamentais que eles deveriam seguir como discípulos de Cristo. Entre as diversas razões para pensarmos que efésios não foi escrito pelo "Apóstolo" Paulo podemos destacar as contradições com as ideais encontradas em outras cartas de Paulo. Por exemplo, em Efésios como nas cartas autênticas de Paulo é ensinado que os crentes foram apartados de Deus por causa do pecado, mas que foram feitos justos perante Deus exclusivamente por meio de sua graça, não como resultado de obras. Mas aqui, estranhamente, Paulo se inclui como alguém que antes de chegar a Cristo foi desviado pelos desejos de nossa carne, satisfazendo a vontade da carne e seus impulsos: "Sim, todos nós nos comportávamos outrora entre eles em harmonia com os desejos de nossa carne, fazendo as coisas da vontade da carne e dos pensamentos, e éramos por natureza filhos do furor, assim como os demais" - Efésios 2:3.
Isso não se parece com o Paulo das outras cartas onde ele diz ter sido irrepreensível quanto a justiça que há na lei: "com respeito ao zelo, perseguindo a congregação; com respeito à justiça que é por meio de lei, um que se mostrou inculpe" - Filipenses 3:6 (J. Christiaan Beker, "Paul the Apostle: The Triumph of God in Life and Thought" – Filadélfia, Fortress, 1980).
Outra forte evidência de que Efésios não foi escrito por Paulo é o estilo de redação. Paulo normalmente escreve com frases curtas e incisivas, mas as sentenças em Efésios são longas e complexas. Em grego, a declaração de abertura (Efésios 1:3-14) compõem uma única sentença com doze versículos, porém, este não é o modo como Paulo escrevia. Nas 100 sentenças de Efésios cerca de 9 tem mais de cinquenta palavras de extensão. Compare isso com as cartas do próprio Paulo.
Filipenses, por exemplo, tem 102 sentenças, com apenas 1 com mais de cinquenta palavras. Gálatas têm 181 sentenças, mas com apenas 1 com mais de cinquenta palavras. O livro também tem um número incomum de palavras que não ocorre nos escritos de Paulo, são 166 no total, bem acima da média, em Filipenses que tem mais ou menos o mesmo tamanho de Efésios encontramos apenas 83 palavras que não ocorrem nos outros escritos de Paulo (Victor Paul Furnish, "Efhesians, Epistle to", Anchor Bible Dictionary – Nova York, Doubleday, 1992 – 2:535-542).
Além disso, este autor indica que os crentes já foram salvos pela graça de "Deus", o verbo "salvar" nas cartas consideradas autenticas de Paulo sempre é usado para se referir ao futuro, não é algo que as pessoas já tenham, antes algo que irão ter quando Jesus retornar nas nuvens. Paulo fala em suas cartas que os cristãos batizados tinham morrido para os poderes deste mundo, tinham "morrido" com Cristo, mas não tinham sido elevados com Cristo, isso ocorreria no fim dos tempos por ocasião do segundo advento. Ele era extremamente insistente neste tema de que a ressurreição física dos crentes ocorreria no futuro, não algo que já houvesse ocorrido.
Paulo dedica o capítulo quinze de (1ª Coríntios) inteiramente para mostrar que os cristãos ainda não tinham sido erguidos com Cristo. Entretanto, em Efésios ele afirma algo que contradiz totalmente isso: "vivificou-nos junto com o Cristo, mesmo quando estávamos mortos nas falhas — por benignidade imerecida é que fostes salvos — e ele nos levantou junto e nos assentou junto nos lugares celestiais, em união com Cristo Jesus" (Efésios 2:5-6).
Segundo o autor os crentes já experimentavam uma ressurreição espiritual e desfrutavam de uma existência celestial naquela época. Ao que parece, esse livro foi escrito por um cristão posterior querendo lidar com algumas questões em sua época e alegou ser Paulo para dar autoridade a sua palavra (J. Christiaan Beker, "Heirs of Paul: Paul1' Legacy in the New Testament and in the Church Today" – Mineápolis, Fortress, 1991).
Com respeito à carta de Colossenses, as razões para crer que o livro não foi escrito por Paulo são em grande parte as mesmas de Efésios. Colossenses tem tantas palavras e frases também encontradas em Efésios que alguns estudiosos afirmam que quem falsificou Efésios usou Colossenses como uma das fontes para ver o modo como Paulo escrevia, mal sabia ele que sua fonte também era uma falsificação (Victor Paul Furnish, "Efhesians, Epistle to", Anchor Bible Dictionary – Nova York, Doubleday, 1992 – 1:1090-1096).
Em geral, o estilo de redação é muito diferente das outras cartas de Paulo. O mais convincente estudo do estilo de redação de Colossenses foi feito pelo acadêmico alemão Walter Bujard. Ele analisou os tipos de traços estilísticos da epístola como infinitivos, particípios, tipo e frequência das conjunções, sequências de genitivos, orações subordinadas entre outros (Walter Bujard, Stilanalytsche Untersuchungen zum Kolosserbrief: Als Beitrag zur Methodik Von Sprachvergleichen – Göttingen, Vandenhoeck & Ruprecht, 1973).
Ele comparou Colossenses com cartas de Paulo de tamanho similar como Gálatas, (Filipenses e 1ª Tessalonicenses). A diferenças entre essa carta e os escritos de Paulo são enormes e convincentes. Por exemplo, a regularidade com que a carta aos Colossenses usa conjunções adversativas como "embora" (são 8 vezes) é muito menor do que em outras cartas de Paulo (em Gálata são 84 vezes, em Filipenses são 52 vezes, em 1ª Tessalonicenses são 29 vezes). O uso de conjunções casuais como "porque" (são 9 vezes em Colossenses) é muito menor do que em outras cartas de Paulo (em Gálatas são 45 vezes, em Filipenses são 20 vezes, em 1ª Tessalonicenses são 31 vezes). O uso de uma conjunção como "por exemplo", "que" e "como" para introduzir uma declaração (são 3 vezes em Colossenses) é muito menor do que em outras cartas de Paulo (em Gálatas são 20 vezes, em Filipenses são 19 vezes, em 1ª Tessalonicenses são 11 vezes).
No estudo de Bujard a lista é enorme analisando diversas informações, com muitas exposições sempre indicando a mesma direção, a carta aos Colossenses não foi escrita por Paulo. O conteúdo também está em contradição com o que Paulo expressava em suas cartas autênticas, mas é coerente com Efésios. Portanto, temos aqui mais um caso de um seguidor posterior que estava preocupado em abordar uma situação em sua própria época e o fez assumindo o nome de Paulo.
Agora vamos concentrar nosso estudo nas chamadas epístolas pastorais, (1 e 2 Timóteo e Tito). Todas as evidências indicam que estas três cartas foram escritas pela mesma pessoa e essa pessoa provavelmente não foi Paulo. Todas as três tem conexões verbais e semelhanças demais indicando um mesmo autor. Veja por exemplo como começam (1ª e 2ª Timóteo):
"Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, sob o mandado de Deus, nosso Salvador, e de Cristo Jesus, nossa esperança, a Timóteo, filho genuíno na fé: Haja benignidade imerecida, misericórdia, paz da parte de Deus, [o] Pai, e de Cristo Jesus, nosso Senhor" (1ª Timóteo 1: 1-2).
"Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, pela vontade de Deus, segundo a promessa da vida que está em união com Cristo Jesus, a Timóteo, filho amado: Haja benignidade imerecida, misericórdia, paz da parte de Deus, [o] Pai, e de Cristo Jesus, nosso Senhor" (2ª Timóteo 2: 1-2).
Como podemos observar, são praticamente iguais e nenhuma das cartas consideradas realmente escritas por Paulo começa assim, além disso, há uma quantidade enorme de concordâncias verbais similares. Palavras e frases nestas cartas (como "a promessa de vida", "com uma consciência pura", "de um coração puro", "apóstolo, mensageiro e mestre") não são encontradas em nenhuma das outras cartas atribuídas a Paulo, apenas nestas. Quem escreveu estas cartas tinha seus termos preferidos que não eram usados por Paulo em suas cartas.
O estudioso britânico A.N. Harrison escreveu um estudo das epístolas pastorais apresentando estatísticas sobre a utilização de palavras nestes textos demonstrando que o estilo de redação é muito diferente das outras epístolas paulinas. Há 848 palavras diferentes usadas nas epístolas pastorais, delas, 306 não aparecem em nenhuma das outras epístolas paulinas do novo testamento, além disso, 200 destas 306 palavras são muito usadas por autores cristãos do 2º século, sugerindo que este autor usava um vocabulário mais comum de uma época posterior a de Paulo, portanto, viveu após o tempo de Paulo (A.N Harrison, "The Problem of the Pastoral Epistles" – Oxford University Press, 1921).
Algumas vezes o autor usa as mesmas palavras de Paulo, mas com significados diferentes. Por exemplo, o termo fé era muito importante para Paulo, nas cartas aos Romanos e aos Gálatas a palavra fé se refere à confiança na salvação por meio da morte de Cristo, portanto, uma relação com outro, no caso, confiança em Cristo. Já nas pastorais, o termo fé significa o conjunto de ensinamentos que compõem a religião cristã conforme podemos ver em (Tito 1:13-14): "Este testemunho é verdadeiro. Por esta mesma causa persiste em repreendê-los com severidade, para que sejam sãos na fé, não prestando atenção a fábulas judaicas e a mandamentos de homens que se desviam da verdade".
Algumas ideias e conceitos nas epístolas pastorais parecem contradizer o que encontramos nas epístolas de Paulo. Em (1ª Coríntios 7), Paulo afirma que as pessoas solteiras deveriam tentar permanecer assim, como ele, pois o fim está próximo e elas deveriam se dedicar a divulgar essa notícia, sem as distrações e os afazeres do casamento. Já nas pastorais a questão de se casar não é mais um empecilho para os cristãos, inclusive, os líderes da igreja deveriam ser maridos de uma só esposa e ter filhos disciplinados.
Observamos nas cartas paulinas diversas argumentações de que as "obras da lei" não levam a salvação, antes, o que salva é a fé na morte e ressurreição de Jesus. Quando Paulo fala de "obras" ele claramente se refere às coisas que a lei judaica exige como ser circuncidado, guardar o sábado, não comer alimentos considerados impuros pela lei, etc. Porém, nas pastorais o autor se refere a "obras" como sendo atos de bondade para com o próximo. A situação histórica mostrada nas pastorais se torna mais uma evidência de que Paulo não é seu autor.
Nas demais cartas de Paulo fica evidente que para ele o fim era iminente. Paulo chamou Jesus de as primícias dos que morrem numa clara metáfora agrícola, pois os agricultores celebravam o primeiro dia de colheita (as primícias) com uma festa à noite, colhendo o restante no dia seguinte, logo após a festa e não cinquenta anos depois ou dois mil anos depois. Portando, para Paulo, muito em breve os mortos seriam erguidos, tanto é assim que ele tem a expectativa de estar vivo quando Jesus retornar, note sua expressão:
"Pois, se a nossa fé é que Jesus morreu e foi levantado de novo, então, também, Deus trará com ele os que adormeceram [na morte] por intermédio de Jesus. Pois, nós vos dizemos pela palavra de Jeová o seguinte: que nós, os viventes, que sobrevivermos até a presença do Senhor, de modo algum precederemos os que adormeceram [na morte]; porque o próprio Senhor descerá do céu com uma chamada dominante, com voz de arcanjo e com a trombeta de Deus, e os que estão mortos em união com Cristo se levantarão primeiro. Depois nós, os viventes, que sobrevivermos, seremos juntamente com eles arrebatados em nuvens, para encontrar o Senhor no ar; e assim estaremos sempre com [o] Senhor" (1ª Tessalonicenses 4:14-17).
Observamos Paulo dizendo que Deus havia revelado a ele que os que sobrevivessem até a volta de Cristo, grupo este que ele se incluía (observe o uso do pronome "nós") seriam arrebatados em nuvens.
Fica evidente que ele tinha plena convicção de que o retorno de Jesus ocorreria dentro do tempo de vida de alguns de seus contemporâneos. Lendo as cartas de Paulo notamos que seu ponto de vista é de que durante o curto período entre a ressurreição de Cristo e o fim dos tempos o espírito dado à igreja e a cada indivíduo daria a orientação necessária para o bom funcionamento das congregações. Por ocasião do batismo a pessoa recebia o espírito santo que lhe dava um dom espiritual, como por exemplo o dom de ensinar, de profetizar, de curar, de falar em línguas, de interpretar essas línguas, etc. Todos estes dons deveriam ajudar a comunidade cristã a funcionar em unidade. Nenhum destes dons era menor ou insignificante, todos tinham importância, todos na igreja tinham um "dom", assim, todos eram iguais, escravos e senhores, homens e mulheres, ricos e pobres, judeus e gentios. Por isso, Paulo podia dizer:
"Não há nem judeu nem grego, não há nem escravo nem homem livre, não há nem macho nem fêmea; pois todos vós sois um só em união com Cristo Jesus" (Gálatas 3:28).
Quando surgia problemas nas congregações que Paulo ajudou a formar ele escrevia para lidar com eles diretamente, descrevendo seu problemas de forma individual. Basta ler as duas cartas de Paulo aos coríntios para ver que a comunidade ali era uma confusão, havia divisões e brigas internas, alguns membros processando outros, sérias discordâncias em relação a grandes questões éticas e comportamentais, como se era correto comer carne que tivesse sido sacrificada a ídolos pagãos.
Alguns negavam que fosse haver uma ressurreição futura, outros se entregavam a imoralidade chegando ao ponto de visitar prostitutas e se gabar disso na congregação, inclusive é relatado o caso de um homem que tinha relações sexuais com a própria madrasta. Paulo cuida desses problemas diretamente em suas cartas exortando-os a usar seus "dons espirituais" para resolver os problemas. Ele não escreve aos líderes da congregação, antes sua carta fala diretamente a todos os membros da igreja. Não havia bispos ou diáconos, antes um grupo de indivíduos, cada um com um "dom do espírito" nesse breve tempo antes do fim tão próximo.
Agora nas pastorais não há indivíduos dotados pelo espírito trabalhando juntos para formar uma comunidade. Ali existe uma hierarquia, uma estrutura organizada com líderes como (Timóteo e Tito), além de bispos e diáconos, uma situação completamente diferente da época de Paulo. Se você espera que Jesus volte logo não há necessidade de um sistema hierarquizado de organização e liderança. Porque observamos esta drástica mudança? O tempo passou e o suposto Jesus não retornou tão rapidamente como se esperava, a situação mudou, surgiu a necessidade de organização e liderança para manter a ordem, mestres se fizeram imperativos para salvaguardar o ensino especificando como as pessoas deveriam se relacionar socialmente, senhores e escravos, maridos e mulheres, pais e filhos. Num sistema hierárquico não há igualdade, há comando. Nas epístolas pastorais encontramos este ambiente (Jerome D. Quinn, "Timothy and Titus, Epistles to", Anchor Bible Dictionary – Nova York, Doubleday, 1992 – 6:560-571).
Portanto, todos os indícios apontam para uma falsificação em (1ª e 2ª Timóteo e Tito). Provavelmente o autor estava enfrentando novos problemas numa época posterior com uma nova realidade. O verdadeiro Paulo viveu uma outra realidade, por isso abordou as questões de uma maneira diferente da abordagem do posterior falsificador. Entretanto, se fazer passar pelo Apóstolo Paulo lhe daria um certo prestígio e autoridade, fazendo com que suas orientações fossem escutadas e seguidas. Algumas referências pessoais no final de (2ª Timóteo) como pedir para Timóteo trazer sua capa e também os rolos que ele deixou podem fazer parte de uma técnica de falsificação que procura fazer a carta soar informal, reduzindo as suspeitas de que seja falsa.
É verdade que muitos escritores modernos, em especial poetas e romancistas conseguem escrever diversos livros em estilos diferentes. Porém, Paulo não era um poeta nem um romancista profissional, ele escrevia cartas pessoais com objetivos teológicos (defender e divulgar sua fé como também orientar seus irmãos). Os cristãos consideram tais cartas como sendo inspiradas por Deus, que os homens eram movidos pelo "espírito santo de Deus", sendo apenas instrumentos para "Deus' escrever a bíblia (como um secretário que escreve uma carta ditada pelo chefe), portanto, deveriam evidenciar não só um mesmo estilo de escrita (visto que todas as 13 cartas são atribuídas a Paulo) como também os mesmos conceitos teológicos (visto que supostamente são inspiradas por Deus).
Entretanto, as evidências mostram que nas cartas de Paulo há ideias e estilos totalmente diferentes. Se você é um pai amoroso e quer escrever algumas cartas para seu filho transmitindo informações importantíssimas para sua sobrevivência, com certeza escreveria num estilo fácil de se entender e coerente, você não iria ficar mudando seu estilo para confundir seu filho (como o poeta Fernando Pessoa, por exemplo, que nos seus poemas heterônimos escreveu em diversos estilos assinando diversos nomes diferentes para mostrar sua habilidade como poeta) ou iria ficar mudando seus conceitos, numa carta falando uma coisa e na outra dizendo algo totalmente diferente, isso só iria desorientar o filho. Portanto, não há como tentar justificar tais diferenças de estilo e conceito.
Qual a probabilidade de que Paulo realmente tenha estudado sob a lei farisaica como sugere o autor de (Atos 22:3)?:
"Quanto a mim, sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, e nesta cidade criado aos pés de Gamaliel, instruído conforme a verdade da lei de nossos pais, zelador de Deus, como todos vós hoje."
Nenhuma probabilidade!
Pois Paulo claramente teria dificuldades com o idioma hebraico! Pois todas as suas referências bíblicas são tiradas do Grego de uma tradução de escrita judaica, a Septuaginta, e não do alfabeto Hebraico ou língua semítica.
Conclusão:
O cenário mais provável é de que outro escritor com ideias diferentes vivendo num contexto histórico diferente numa situação nova usou o nome de Paulo para dar prestígio e autoridade as suas orientações. Estes exemplos acima são apenas uma pequena amostra das muitas falsificações existentes nos primórdios do cristianismo. A quantidade de livros que os autores alegam ser personagens famosos do cristianismo, enganando seus leitores é muito grande. Diante de tais fatos surgem os seguintes questionamentos: Se a bíblia é um livro inspirado por "Deus' como explicar tais falsificações? Como Deus poderia permitir que escritores enganassem desta forma os cristãos? Como pode a "Palavra de Deus" ser baseada numa mentira?


Comentários
Postar um comentário